terça-feira, 4 de março de 2014

Photoboothing e o que aprendi sobre pessoas com necessidades especiais

Como já sabem, dia 14 de fevereiro foi o Valentine's Day aqui nos EUA (equivalente ao dia dos namorados). A diferença é que aqui o pessoal curte dar e receber lembrancinhas (guloseimas, etc) pra amigos e amigas além de namorado(a). Acaba que todo mundo (solteiros inclusos) sai ganhando e se diverte.

No dia anterior, na quinta-feira dia 13, a estaca (comunidade regional da Igreja) da Vivian organizou um baile de Valentine's para pessoas com necessidades especiais. Ela me pediu pra participar batendo as fotos dos convidados no photobooth, como trabalho voluntário. Aceitei sem pensar demais. Bateria as fotos, e só. Até a decoração e props do photobooth seriam providenciados.

Não sabia que rapidinho minha atitude mudaria.

Ao chegar no local do baile, toda a decoração pra dia dos namorados estava posta. A banda ensaiava e uma meia dúzia de convidados--alguns em vestidos de Prom, outros com a roupa do dia (calça jeans e camiseta), perambulavam o salão em grande expectativas.

A minha expectativa era a de ajeitar minha câmera, bater as fotos e quem sabe chegar a tempo em casa pra salvar o Diogo do trabalho de fazer a Sarah dormir. Quando a maioria dos convidados chegou, os escortaram para a capela, onde sentaram todos no banco e uma pequena reunião de introdução ao baile aconteceu. Quem faz reunião antes de começar um baile?

Enquanto tudo acontecia eu estava sozinha no salão, cuidando dos meus pertences e observando a banda no palco. Até entrar um senhor de uns 40 anos com necessidades especiais. Ele segurava um carrinho numa das mãos. Começou a lançar o carrinho de um lado a outro do salão. Sua acompanhante/ajudante, insistia pra ele entrar na capela onde todos estavam, mas ele insistia, "I'm playing here!" ("Estou brincando aqui!"). E continuou brincando com seu carrinho, como qualquer menino de 6 anos faria.

Quando o carrinho foi na direção do baterista e este entrou na brincadeira e empurrou o carrinho pro dono, seus olhos brilharam!

Foi este episódio que me fez querer conhecer melhor as pessoas que tiraria fotos e com quem passaria a noite. Entrei na capela e me juntei a todos.

Estranhei que haviam separado meninas de um lado e meninos de outro. Mas esse não é um baile de dia dos namorados?? Mais tarde entenderia o porquê.

Na capela, testemunhei uma pequena cerimônia de entrega do medalhão das Moças pra uma menina de necessidades especiais que completara todas as metas e projetos necessários para se receber o prêmio e certificado de conclusão.

Testemunhei a alegria dos meninos e meninas (me refiro aos adultos e crianças com necessidades especiais desta maneira de agora em diante) quando introduziram sua ex-professora que aparentemente havia se mudado pra Las Vegas e os visitava só aquele dia no baile. Para celebrar, todos sacudiram suas mãos no ar quando a viram--e outros não resistiram e exclamaram com animação.

Vi um deles que estava sentado no púlpito de terno e gravata, com toda seriedade, levantar-se e dizer à pessoa com o microfone (e mais tarde a mesma coisa pra banda enquanto tocavam) que "Time's up!" ("O tempo acabou!"), como que avisando que o horário de terminar havia chegado.

Por fim, para que todos tivessem um par na hora das fotos, organizaram um rapaz pra cada moça, e vice-versa. Não haviam somente pessoas com necessidades especiais--outros jovens, amigos da Vivian, estavam no baile e estavam lá pra se enturmar com a "turminha".

Par a par sairam da capela e fizeram fila pra bater uma foto no meu photobooth. Sorte que fui, pois a outra pessoa supostamente responsável do segundo photobooth (um em cada entrada do salão) não foi. Bati a foto de todos.

A banda tocava, mas poucos se sentiam confortáveis com seu par. Pra quebrar o gelo fiquei dançando enquanto batia as fotos e motivava cada par que esperava sua vez a dançar e sorrir. Acho que nunca dancei tanto num baile! =P

O melhor de tudo foi poder conviver com essas pessoas tão boas e inocentes nesta noite que pra eles acima de qualquer outro grupo de pessoas era super especial.

Alguns não sabiam como bater uma foto, o que fazer num photobooth, ou se deviam se aproximar do seu par ou não. Outros não queriam saber de mais nada e pediam bis. Todos bateram fotos e mais tarde receberam uma cópia.

Não vou me esquecer do menino com Síndrome de Down que virou melhor amigo de outros 2 rapazes e fez questão de todos baterem fotos com o prop que ele escolhera (uma coroa de rei).

Não dá pra esquecer da minha conversa com o casal mais fofo e pacato (ambos com necessidades especiais). O homem usava um boné do Five Guys (restaurante fast food). Comentei com ele que adorava comer lá e isso gerou uma longa conversa de como as fritas de lá são uma delícia e me convenceram de provar as batatas fritas apimentadas, mas que o hamburguer apimentado é spicy demais...

Uma das meninas, a que se sentia mais bela no seu vestido longo de Prom, foi a mais esperta e sempre que me via perambulando a pista de dança ou sentada do lado do photobooth pedia pra eu bater uma foto dela com algum rapaz diferente com que ela conversava. ;)

Na pista de dança, pude sentir a vibe positiva do evento inteiro. Todos dançaram--muito ou pouco é relativo. Uma certa mulher com necessidades especiais perambulava o salão, sentava, dançava por 10 segundos, sentava de novo, perambulava mais o salão e nesse meio tempo inteiro sua acompanhante (que era mais nova que eu) a acompanhava fielmente.

Outra, nos seus 30-40, tinha uma beleza incrível. Achei que fosse só a cadeira de rodas seu impedimento. Até que depois que tirei sua foto ela me mostrou seu relógio digital do pulso e ligou a luzinha verde--curti o momento com ela e lembrei de quando estava na primeira série e aquela mesma luzinha do meu primeiro relógio me fascinava! E mais uma vez essa inocência me cativou.

No meio do baile teve até minhoca gigante (todo mundo dançando em fila e passeando pelo salão). Foi aí que a vibe positiva aumentou e todos, adultos e crianças, com e sem problemas, se uniram em harmonia com o único propósito de se divertir.

E contei do cupido que entregou chocolates Kisses pra todo mundo dizendo que ninguém sairia lá sem um beijo? Mais fofo e lisonjeador impossível!

Não sei nem se basta dizer que aprendi muito e amei a experiência. Vai muito além disso. Vi com meus próprios olhos que existem pessoas com uma realidade completamente diferente da minha. E ao conviver com elas--nem que só por uma noite--descobri que podem ser tão felizes quanto qualquer outra pessoa, basta receberem o amor e atenção que merecem e precisam. (E de amor e atenção é o que eu mais careço no mínimo uma vez por mês.....bom, chocolate também)

Espero ter mais oportunidades como essa. E que cada um de nós encontre maneiras de compartilhar os talentos que tem com quem mais precisa deles.

Tomei a liberdade de compartilhar algumas das minhas fotos do evento que mais tem significado pra mim e que melhor narram minha experiência nesse dia. Peço respeito pelas pessoas das fotos na hora de fazer conclusões preconceituosas. Amo cada indivíduo que pude fotografar por sua inocência e pelo que me ensinaram sobre a vida. Obrigada pela compreensão! :)

Uma boa semana a todos!




2 comentários :

Lucas A. disse...

Camilla, eh muito legal poder fazer isso pra pessoas com essas dificuldades. Fico muito feliz de te ver com a Vivian fazendo essa noite ser especial para eles, isso eh um otimo exemplo de servico cristao ao proximo.

Beatriz disse...

Que ideia maravilhosa!!!! Já pude conversar com algumas pessoas especiais e tive as mesmas impressões que vc: uma inocência, uma visão de vida tão diferente... aprendemos muito com eles. Parabéns pelo ato de serviço, de amor!